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Imaginação e Fantasia. Qual a diferença entre elas?

Imaginação e Fantasia.

Qual a diferença entre elas?

Convém que façamos uma plena diferença entre a imaginação dirigida voluntariamente e a imaginação mecânica. Inquestionavelmente, a imaginação dirigida é imaginação consciente; para o sábio, imaginar é ver.

A imaginação consciente é o meio translúcido que reflete o firmamento, os mistérios da vida e da morte, o Ser, etc.

Imaginação mecânica é diferente. Ela é formada pelos resíduos da memória; é fantasia. Convém investigá-la profundamente. É óbvio que as pessoas, com sua fantasia, com sua imaginação mecânica, não vêem a si mesmas tais como são.

A imaginação mecânica faz com que confundam gato com lebre. Vêem formas que não coincidem com a realidade.

É claro que cada um tem sobre si mesmo um conceito equivocado; nunca viram a si mesmos. Sua fantasia não lhes deixa ver como são.Imaginação

Falando de forma alegórica, simpática, trataremos unicamente de fazer uma exploração psicológica a grosso modo, usando nomes simbólicos e que cada um os entenda.

O que diríamos de Cícero? Que grande e eloqüente homem! Quem o negaria? Grande, loquaz como ninguém, lapidário terrível…

Estamos seguros de que tudo nele é benevolência? Reflitamos.

Se expuséssemos a gravidade de suas fantasias, se sentiria magoado. Se o acusássemos, protestaria violentamente…

Nunca assassinou Popéia, esse trabalho foi deixado para Nero, que foi quem fez sangrar o coração de Popéia. Ele de modo algum se sentiria iludido.

Diante desse fato, nos sentiríamos bondosos, Isso provaria nossa característica fantasista: ver-se equivocadamente através do prisma de uma benevolência extraordinária. Isso é óbvio.

E o que diríamos nós, por exemplo, daquele que, aspirando à luz do Espírito, falhasse em sua base? Não dizem que Ícaro elevou-se até os céus com asas de cera? Como se derreteram, foi lançado ao abismo.

No entanto, ele não pensa assim de sim mesmo. Supõem-se alguém fiel nas fileiras, está seguro de que segue o caminho certo, de que é um homem como nenhum outro.

Continuando assim por esse caminho, o que restará a Ícaro depois de ter sido precipitado no Averno? Não dizem que Ganímedes subiu até o Olimpo ao ver o fim?

Mas Ganímedes também pode ser jogado ao fundo do precipício.

Chamemos agora simbolicamente o discípulo de Justiano. Quantas vezes justificou a si mesmo, convencido que está, de que anda muito bem? Talvez nos últimos tempos tenha melhorado um pouco. Porém, por acaso, não protestou em determinados momentos? Por acaso não protestou diante da ara do sacrifício?

No entanto, ele está seguro de que nunca protestou, de que sempre tudo fez em favor da Grande Causa sem nunca falhar.

Em nome da verdade, ainda que lhes pareça difícil de aceitar, são raros os que se viram tais quais são.

Aristóteles, uma e outra vez em sua filosofia, convencido de que sua sapiência é formidável, tornou-a mais inútil, fez sofrer… porém ele vive convencido de que jamais procedeu mal, está seguro de ser magnífico, benevolente, doce, etc.

Todos têm sobre si mesmo uma imagem fantástica. Sua imaginação mecânica faz com que se vejam não como são e sim como aparentemente são.

Entendam o que é memória mecânica e o que é memória do trabalho esotérico. A memória sempre leva alguém a conclusões errôneas.

Estão seguros de poderem recordar sua vida tal qual foi? Não perguntamos de suas vidas passadas e sim pela presente. Impossível, há coisas que surgem desfiguradas na memória mecânica.

Se alguém quando pequeno, embora tenha nascido em plena classe média, vivido em uma casa limpa, asseada, onde não faltou jamais pão, agasalho e refúgio, viu umas quantas moedas, pode acontecer que com a volta do tempo e dos anos guarde em sua memória mecânica lembranças deformadas, umas quantas notas de dinheiro podem parecer milhões, uns pequenos pinheiros do jardim ou perto da janela podem parecer árvores colossais.

Nosso corpo era pequeno e não seria estranho, quando já adultos, dissermos: de pequeno, quando era criança vivia em tal lugar, minha casa era magnificamente arrumada, tinha grandes paredes, uma mesa tão bonita e quanto dinheiro! É a memória mecânica. Ela é absurda. Assim, pois, a única memória real é a do trabalho esotérico.

Se através do exercício retrospectivo recordássemos, em parte veríamos que essa casa de garotinhos da classe média não era o palácio que antes pensávamos que fosse e sim uma humilde casa de um pai trabalhador e sincero. As fabulosas somas de dinheiro que nos rodeavam eram apenas pequenas quantias para pagar o aluguel da casa e para comprar os alimentos.

A memória mecânica ou é mais ou é menos falsa. Se um grupo faz uma excursão geológica, verá exatamente os mesmos fragmentos e pedras. No regresso, cada um dará uma versão diferente. O que prova isso? Que a memória mecânica é infiel.

Quantas vezes já lhes aconteceu o seguinte: contaram algum relato a um tal ou qual amigo, o qual por sua vez contou a outro, porém, ao contar, acrescentou alguma coisa ou retirou um pouquinho. Já não é o mesmo relato, está desfigurado.

Se esse outro, por sua vez, conta a mais alguém, o relato segue se desfigurando e com o passar do tempo nem vocês mesmos reconhecem mais a narrativa. Ficou tão desfigurada que em nada se parece ao que vocês relatavam.

Assim é a memória mecânica, não serve. Acontece que na memória mecânica existe a fantasia. Memória mecânica e fantasia estão muito associadas. Como controlar então a fantasia? Não há senão um modo de controlá-la, através da memória do trabalho.

A memória mecânica faz com que vejamos a nossa vida como não é ou como não foi. Por intermédio do trabalho, vamos despedaçando a nossa própria vida e chegamos a descobri-la tal qual é. O que quero dizer com isso? Que com a memória que guardamos depois do trabalho realizado é possível controlar a fantasia, eliminá-la, e eliminá-la radicalmente.

Torna-se conveniente a eliminação dessa imaginação mecânica porque ela de modo algum permite o progresso esotérico.

Vejam a mulher que se enfeita diante do espelho, que pinta os seus grandes olhos, que afina suas sobrancelhas, que põe enormes pestanas postiças, que pinta os lábios com cores com a última moda, como se olha diante do espelho enamorada de si mesma. Ela está convencida de que é belíssima.

Se lhe disséssemos que é espantosamente feia, sentir-se-ia ferida em sua vaidade e mortalmente. Ela desenvolve uma fantasia terrível e sua maneira de fantasiar a faz se ver como não é.

Cada um tem sobre si mesmo um conceito bem equivocado, totalmente equivocado, totalmente; isso é terrível!

Alguém pode se considerar genial, capaz de dominar o mundo, dono de uma brilhante intelectualidade, estar convencido de suas capacidades.

Se compreendesse que o que tem em sua personalidade não é dele e sim alheio, que suas idéias não são próprias porque as leu em algum livro, que está cheio de chagas morais terríveis!

No entanto, poucos são os que tem a coragem de despir a si próprios para se verem tais como são. Cada um projeta um tipo de fantasia sobre si mesmo e é por causa dessa falsa imagem que nunca viu a realidade, jamais, isso é terrível, espantoso.

Enquanto não se dissolver essas formas de fantasia, permaneceremos muito longe do Ser. Conforme alguém for desintegrando as formas de fantasia, o Ser irá se manifestando mais e mais nele.

Quando alguém se aprofunda nisso que é a vida, o mundo, descobre que francamente nunca vira o mundo como verdadeiramente é, vira-o apenas através das formas da fantasia e nada mais.

Imaginação mecânica, quão grave é! Sonhos de fantasia: algumas vezes, nos sonhos, uma pessoa permanece calada; outras vezes, conversa e, noutras, quer nos levar à prática. Obviamente, no terceiro caso, a questão é séria.

Quando um sonhador quer levar seus sonhos à vida prática, comete loucuras espantosas, pois seus sonhos não coincidem com a mecânica da vida.

O sonhador silencioso gasta muita energia vital, mas não é muito perigoso.

O que fala seus sonhos, sonhos fantásticos, pode contagiar a outras psiques, a outras pessoas, contudo quer converter francamente seus sonhos em fatos da vida, esse está bem liquidado, está louco. Isso é óbvio!

Já vimos claramente que a imaginação mecânica ou fantasia nos mantém muito longe da realidade do Ser e isso é de fato lamentável.

Imaginação 1As pessoas caminham pelas ruas em pleno sonho, seguem em suas fantasias: trabalham sonhando, casam-se sonhando, vivem uma vida de sonhos e morrem sonhando. Vivem num mundo irreal, nunca viram a si mesmas, sempre viram uma forma da sua fantasia. Suprimir essa forma de fantasia acaba sendo espantosamente forte.

Naturalmente, há várias formas de fantasia, de pessoa-fantasia que não coincide com a realidade.

Como controlar a fantasia? Não há senão uma maneira de controlá-la: a memória do trabalho.

Precisamos ser sinceros com nós mesmos e trabalhar para eliminar de nós os elementos indesejáveis que temos. A medida que os formos eliminando, iremos descobrindo uma ordem de trabalho.

Quem vem a estabelecer essa ordem no trabalho esotérico? O Ser.

Essa memória do trabalho permite que eliminemos de nós a fantasia. Porém, precisa-se de muita ordem para quebrar o eu-fantasia, a pessoa-fantasia.

Há raros momentos na vida, bastante raros, nos quais alguém consegue ver como é ridículo, são momentos em que se consegue perceber seu eu-fantasia, sua pessoa fantasia.

Quando isso ocorre, verifica-se dor moral muito profunda. Porém, logo o sonho retorna novamente e busca uma maneira de endireitar o torto. Por fim, consola-se de cinquenta mil maneiras, esquece a questão e o mundo segue em paz como sempre.

Vale a pena se sincero para com nós mesmos.

Trata-se de nos autoconhecermos, se é que de verdade queremos manifestar o Ser que levamos dentro, se é que de verdade aspiramos à realidade, nada mais do que a realidade, sem um átomo de fantasia.

Precisamos ter a coragem de nos separar, de romper com essa pessoa-fantasia que não existe.

Claro que será necessário o uso do bisturi da autocrítica, do contrário a autocrítica não seria possível. Se procedermos assim, conseguiremos quebrar o eu-fantasia, conseguiremos destroçá-lo, reduzi-lo à cinzas, à poeira cósmica.

Objetivo: descobrir o Ser que mora em nossas profundezas. O eu-fantasia eclipsia o Ser é real, não nos deixa vislumbrar o Ser.

Não esqueçam de que o Reino dos céus está dentro de nós mesmos e que tem vários níveis.

O Reino da Terra também está aqui em nós e o nível mais alto do Reino da Terra não chega para o menor, que vive no Reino dos céus, colocar os seus pés.

Como sair dos diversos níveis do Reino da Terra para entrar ao menos no nível inferior do Reino dos Céus?

Qual a primeira escala do Reino dos Céus que está dentro de nós e não fora?

Como se dá esse passo do Reino da Terra ao dos Céus?

O Reino da Terra em vários níveis, uns mais elevados, outros mais refinados, porém o mais refinado dos níveis do reino da terra ainda não é o Reino dos Céus.

Para se passar do mais alto degrau do reino da terra para o mais baixo do reino dos Céus precisa-se de uma mudança, de uma transformação, precisa-se desdobrar-se em dois: a personalidade terrena e o homem psicológico, o homem interno.

Como poderia esse desdobramento em dois se produzir?

Um homem interior terreno colocado no nível comum e normal e um outro numa oitava superior de si mesmo?

Como poderia na verdade se produzir essa separação em nós, nesses dois tipos de homens? Julgam que isso seria possível se continuássemos com esta personalidade fantástica que cremos ser a verdadeira e não o é?

Enquanto alguém esteja convencido de que a forma que está vendo é verdadeira, o desdobramento psicológico não será possível que o homem interior se separe do exterior, não será, pois, possível, a entrada no primeiro degrau do Reino dos Céus.

Obviamente, é a fantasia que mantém a humanidade absorta no estado de inconsciência em que se encontra.

Enquanto existir a fantasia, a consciência continuará adormecida. Tem-se que destruir a fantasia! Em vez de fantasia, devemos ter em nós imaginação consciente, imaginação dirigida.

A fantasia é imaginação mecânica, devemos ter em nós a memória do trabalho.

Assim, quem pratica o exercício retrospectivo a fim de revisar sua vida termina com a memória mecânica e estabelece em si a memória consciente, a memória do trabalho. De maneira que, com o exercício retrospectivo, podemos nos lembrar das vidas anteriores e acabar com a fantasia.

Desse modo, a memória do trabalho e a imaginação consciente nos permitirão seguir o caminho do auto-descobrimento.

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